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A POÉTICA DO AÇO

 

Na segunda metade do século XIX, a Revolução Industrial consolidou o que designamos hoje "Mundo Moderno". Mudanças estruturais afetaram diversas áreas do conhecimento humano, o socialismo e a democracia apareceram como as grandes bandeiras políticas, os meios de produção passaram a visar a coletivização do consumo, o homem preparava aí o maior câmbio de sua história.

O cenário para toda esta transformação se desenhou numa nova concepção dos espaços urbanos. Cidades tradicionais como Paris, Viena e Barcelona buscaram sua reordenação através de um desenho claro que refletia todo o pragmatismo dos tempos modernos.

A revolução cultural que se propunha vinha acompanhada de uma nova estética. As tecnologias de construção refletiam este momento com proposições até então desconhecidas que encantavam e chocavam as pessoas da época.

Pela primeira vez se conheceram as estruturas metálicas. Diversas obras aparecem como ícones da modernidade como o Crystal Palace em Londres 1851 obra do construtor Joseph Paxton, a torre Eiffel de 1889 em Paris ou a ponte de Brooklin de 1883 por John Roebling em Nova York que ganhou odes apaixonadas dos poetas Garcia Lorca da Espanha e Vladmir Maiakovski da Rússia.

O uso de estruturas metálicas nas construções desde esta época se liga a um conceito "high tech" de produção, aliando racionalidade, rapidez, economia e expressão cultural. A nova abordagem exige uma grande integração entre engenharia e arquitetura.

O aço está presente em movimentos utópicos como das vanguardas Russas do começo do século XX que propuseram uma reviravolta de padrões estéticos das artes plásticas à arquitetura, como pode se ver nos trabalhos dos chamados arquitetos construtivistas como Konstantin Melnikov, Iakov Chernijov ou Vladmir Tatlin que pouco construíram mas deixaram em seus desenhos proposições importantes.

O aço também participa da explosão urbanística dos anos 20 e 30 estruturando obras em Nova York como o Flatiron Building de 1922, do Crysler Building de 1930 e o Empire State de 1931 respectivamente obras dos arquitetos Daniel Burnhan, Willian Lamb e Willian Van Hallen.

O Brasil de forma própria acompanha este momento mundial. Grande fato nacional da virada do século XX foi a criação da cidade de Belo Horizonte quando uma equipe de técnicos comandada pelo engenheiro Aarão Reis dedicou todo seu entusiasmo em construir uma cidade moderna. Os componentes metálicos apareciam em pequenos e importantes detalhes nas construções, eram importados da Europa mas compunham obras que refletiam a vontade local de se aliar a uma contemporâneidade global.

Finalmente em 1946 se instala a Usina Siderúrgica de Volta Redonda, a primeira do Brasil. Nos anos sessenta a indústria siderúrgica se consolida com a abertura da Cosipa, Companhia Siderúrgica Paulista e da Usiminas, Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais.

A partir daí passa-se a buscar a maneira brasileira de se construir em aço. Pode-se dizer que esta maneira segue evoluindo e que esteve intimamente ligada ao movimento da Arquitetura Moderna Brasileira que teve seu reconhecimento mundial nos anos 50 e 60. Em Brasília, por exemplo, ao lado das obras que exploravam toda a "sensualidade" do concreto armado estavam construções estruturadas em aço como os dois prédios do Congresso Nacional, os edifícios alinhados Ministérios de Oscar Niemeyer ou a Torre de Telecomunicações de Lúcio Costa.

Diversos arquitetos Brasileiros trabalharam originalmente as estruturas metálicas. Dentre vários podemos citar Sérgio Bernardes, Affonso Reidy, Oton Gomes e Fernando Frank, escritório Botti Rubin, Carlos Bratke, Ovídio e Germana Pascual, Domingos Bongestabs, João Walter Toscano, Luís Fernando Rocco, Siegbert Zanettini e o trabalho pioneiro do engenheiro de estruturas Paulo Fragoso.

Em Minas Gerais a intimidade com o aço é quase visceral uma vez que nossas montanhas são ricas produtoras do minério de ferro. Também pode-se falar de uma "semelhança" conceitual entre as estruturas em madeira de nossa tradicional arquitetura colonial, onde os pilares e as vigas funcionam com elementos estruturadores independentes; e das possibilidades da arquitetura feita em aço.

Minas Gerais já conta com um acervo, amplamente reconhecido, de obras em estrutura metálica e a presença da Usiminas e da Açominas no estado é um forte catalisador para que se pense a arquitetura e a engenharia do aço.

Entre diversos arquitetos mineiros contemporâneos que projetaram edifícios significativos nesta tecnologia podemos citar: Gustavo Penna, Flávio Almada, Joel Campolina, Jô Vasconcelos, Éolo Maia, Sílvio Podestá, Júlio Teixeira, Carlos Alberto Viotti, Fernando Ramos, Marcus Vinícius Rios Meyer, Raphael e Álvaro Hardy, Mariza Machado Coelho, Cid Horta.

Também gostaria de citar o ed. Capri de 1992, localizado à rua Piauí 69 em BH, projeto de meu escritório com estrutura executada pela Módulo e obra pela Ponta Engenharia. Este edifício mereceu o Prêmio Jovem Arquiteto 1994 no museu da Casa Brasileira em São Paulo pela originalidade no manejo da estrutura metálica. Atualmente estamos construindo juntamente com a CVA/Tríade Engenharia, e com estrutura da Codeme o Scala Work Center, edificio estruturado em aço nas proximidades do Hospital Felício Roxo, na avenida do Contorno em BH.

Com a chegada do século XXI estamos na era pós-industrial e vivemos a revolução cibernética onde as redes de informação têm importância primordial na globalização do planeta. A construção em aço atravessou todo o século e continua como paradigma da evolução na arte de edificar. Arquitetos como Renzo Piano da Itália, Norman Foster e Richard Rogers da Inglaterra, Jean Nouvel da França ou Santiago Calatrava da Espanha, mostram em cada um de seus novos projetos as novas possibilidades da construção metálica.

Na América Latina e no Brasil a criatividade dos engenheiros e arquitetos pode e deve lançar mão do aço na construção tanto para definir nossa veia criativa e nossa própria lingugem cultural bem como para banir a miséria de nossas paisagens.

Estes são grandes desafios para o próximo milênio.

 

João Diniz, arquiteto