OLHARES PARA UMA CIDADE PLANEJADA
Livro fotografa Belo Horizonte através de textos
literários que desvendam a sua história
Pedro Maciel

Sedução do Horizonte, de Laís Corrêa de Araújo, Fundação João Pinheiro é uma antologia de textos literários e históricos sobre a criação da cidade de Belo Horizonte. Washington e a capital de Minas Gerais foram as primeiras cidades planejadas do continente americano. Belo Horizonte foi inaugurada em 12 de dezembro de 1897.
A cidade foi projetada pelo engenheiro Aarão Reis, que optou "por evitar a monotonia e os intermináveis retângulos de lugares como Nova York ou Buenos Aires, traçou através dos retângulos uma série de avenidas diagonais, com jardins e praças em numerosos cruzamentos onde ruas e avenidas se encontram", anotou o jornalista inglês W. Leigh em 1925.
Belo Horizonte nasceu a partir de um arrojado plano urbanístico. A capital também foi marcada por uma arquitetura eclética. Segundo o arquiteto Sylvio de Vasconcelos, "o gosto espetacular, ao mesmo tempo que quase romântico, dominava. A preocupação pelo palacete, pelo edifício importante, condizia bem com uma época de crescimento econômico e cultural mal saído das grandes invenções e do romantismo, e ainda não amargurado pelas tragédias modernas iniciadas com a guerra de 1914".
Nos anos 50, a cidade sofre intervenção do arquiteto Oscar Niemeyer e do pintor Portinari. A cidade reafirma sua modernidade.
Sedução do Horizonte é a mostra desse passado tão recente. Passado descoberto e narrado por escritores, poetas, arquitetos, viajantes e comerciantes. A poeta Laís Corrêa de Araujo, organizadora da coletânea, anota no prefácio que "são olhares descritivos e enamorados, evocações e revalorizações de formas de edificações e de costumes, experiências do cotidiano, em espírito e atitudes provocados pelo exercício da convivência com Belo Horizonte".
Olhares como o do poeta Olavo Bilac: "... O panorama era uma sedução: uma alta montanha fechava ao fundo o cenário, e sobre a verdura fresca da vegetação alvejavam, sorrindo ao sol, as casinhas do arraial." Machado de Assis já olha desconfiado para o surgimento da nova capital: "Eu, se fosse Minas, mudava-lhe a denominação. Belo Horizonte parece antes uma exclamação que um nome". Já o olhar histórico e poético de Prado Kelly justifica o nome da cidade, afinal, "o horizonte é sempre grandioso _ amplo, indemarcado...", a cidade "foi pedir o nome para limite de sua ambição a um círculo infinito".
Há outros olhares neste livro exemplar de história e de poesia. O projeto gráfico é um primor. Poemas de Drummond, Mário de Andrade, Henriqueta Lisboa e Afonso Ávila, entre outros, ilustram o belo livro. Sedução do Horizonte é puro encantamento. Deslumbramento. Alumbramento. Memória de um tempo que ainda está por vir. História de uma época de desenvolvimento. A cidade de Belo Horizonte era conhecida como cidade jardim. Nos anos 40 as pessoas passavam temporadas em Belo Horizonte para fazer tratamento de tuberculose. O tratamento era respirar o ar puro.
O memorialista Pedro Nava é o melhor estudioso desse tempo excedente. Nos legou uma obra clássica. Nava descreveu essa época com olhar detalhista, a exemplo do texto inserido no livro. O memorialista faz apontamentos do famoso bar do ponto . Era uma espécie de ponto de referência nos anos 40. Ponto de encontro entre escritores, intelectuais e políticos, como Carlos Drummond, Emílio Moura, Afonso Arinos, Rodrigo de Melo Franco, Milton Campos, Capanema, JK e o próprio Nava que exercia a medicina, mas pouco antes de morrer, dedica-se a escrever a história desse tempo que ainda circulava o bonde.
Sedução de horizonte é um documento expressivo da história do Brasil. E a história de Belo Horizonte é a síntese de Minas. A capital do Estado ainda tem o futuro pela frente. Tomara que não seja um futuro artificial, como o das cidades decadentes, impérios de ilusões. A ilusão redime a cidade de seu maneirismo.
Pedro Maciel é poeta e jornalista
