UM RIO QUE NÃO VOLTA MAIS
Pedro Maciel
Livro com imagens raras, pertencentes ao acervo do Instituto Moreira Salles, reproduz trabalho dos pioneiros da fotografia
A inglesa Maria Grahm, ao chegar pela primeira vez ao Rio (1821), anota em seu diário: "Nada do que vi até agora é comparável em beleza à (essa) baía. Nápoles, o Estuário do Forth, o porto de Bombaim (...), cada um dos quais julgava perfeito em seu gênero de beleza, todos lhe devem render preito porque esta baía excede cada uma das outras em seus vários aspectos. Altas montanhas, rochedos como colunas superpostas, florestas luxuriantes (...), tudo isso se reúne para tornar o Rio de Janeiro a cena mais encantadora que a imaginação pode conceber".
O cientista Charles Darwin, sentiu-se encantado com "cada forma, cada sombra (que) tão completamente excede em magnificência tudo o que o europeu sempre viu em seu país de origem que ele não sabe como exprimir as suas sensações".
Já o padre Anchieta diz que "é a mais airosa e amena baía que há em todo o Brasil".
Os viajantes e cronistas do passado se deslumbraram tanto quanto ainda hoje se deslumbram os turistas de todo o mundo com a paisagem carioca.
O livro "Rio de Janeiro 1862-1927", álbum fotográfico da formação da cidade, é uma mostra deste deslumbramento.
O luxuoso livro reproduz 153 fotos dos pioneiros da fotografia em nosso país, artesãos das imagens, como Marc Ferrez, Augusto Stahl, George Leuzinger, Juan Gutierrez, Augusto Malta e um fotógrafo desconhecido, referido no volume como Amador Alemão. O portfólio se completa com algumas imagens que integrava o arquivo da revista argentina Caras Y Caretas.
As fotos do período oitocentista retratam o centro da cidade, os bairros portuários da Saúde e Gamboa, Botafogo, Jardim Botânico, o Campo de Santana, a Glória, a Lapa, o Passeio e os morros do Castelo e de Santo Antônio.
Fora deste perímetro, ainda foram fotografados locais como a Quinta da Boa Vista, residência da família real e a floresta da Tijuca.
Nesta época, a população da cidade crescia vertiginosamente: em 1836, eram 136 mil habitantes; em 1870, 235 mil e em 1906, a população era de 621 mil.
Esta mostra de fotos nos fazer relembrar o quanto se perdeu de um Rio de Janeiro ainda não metrópole. Restaram apenas alguns sítios e monumentos.
O traçado da cidade foi tragado pela administração do engenheiro Pereira Passos, nomeado prefeito do Rio em 1902.
O arquiteto Augusto C. da Silva Telles, autor do ensaio "O Rio de Janeiro e sua paisagem", comenta que as obras "da administração Pereira Passos beneficiaram a cidade quanto a circulação, ventilação e saneamento. Entretanto criaram problemas sérios de realocação da população de classe média baixa e miserável, provocando ocupação desordenada das áreas acrescidas pela execução do porto, das áreas nas faldas dos morros do Livramento, Providência, Pinto e Paciência, onde chácaras aí existentes foram loteadas ou ocupadas por diversos casebres, ampliando os afavelamentos".
As reformas implantadas por Pereira Passos tinham mais razões ideológicas e políticas do que necessidades urbanísticas, pois visavam, como observou Lima Barreto, dividir a cidade em duas partes não-comunicantes, uma "européia e a outra indígena".
As fotos do álbum "Rio de Janeiro..." são reveladoras, mas são apenas pistas para a recriação de uma cidade com ares franceses que ficou no imaginário do carioca. As imagens evocam um tempo perdido nas rememorações dos historiadores, tempo de mortos encantados, paisagens que pareciam eternas.
Dessa forma, a fotografia se transformou em testemunha da memória, capaz de dar à coisas um sentido de permanência.
A fotografia, para uma cidade vaidosa como o Rio de Janeiro, é uma luta contra o tempo, a imagem capturada na eternidade do instante.
Talvez a imagem em preto-e-branco seja a melhor tradução da história. Com ela, a fotografia mudou o significado da experiência visual e provocou a representação de um mundo de luz e sombra. De certa forma, a fotografia, o "inconsciente da visão", segundo o filósofo alemão Walter Benjamin, tornou possível a ressureição do vazio.
Pedro Maciel é poeta e jornalista
CIDADE MARAVILHOSA
Tudo é graça o que dela se pode dizer. (Tomé de Souza)
Não pode a pena imitar o lápis, nem o lápis a natureza, em cenários tais como esse. (John Luccock)
Não há pincel capaz de pintar a magnificência deste natureza grandiosa. (Teodore Bosche)
Não há cidade mais bela no mundo, e talvez não haja outra que seja mais misteriosa, mais heterogênea. (Stefan Zweig)
Quem pode gozar este magnífico espetáculo acha-o muito acima de tudo o que os livros ensinaram. (De La Salle)
Rio: risco de tantas cores, jardins de sombra e paz, ruas com alma de rua,
O mar pegado às casas, entrando no cotidiano,
Rio que a gente conheceu e agora não conhece mais. (Carlos Drummond de Andrade)
Não sou eu quem canta o Rio: O Rio é que canta em mim. (Stella Leonardos)
