




Carta à editora do jornal 'O Estado de Minas'. após críticas feitas ao projeto. Esta carta foi publicada e comentada por Ana de forma muito cordial:
Caríssima Ana Marinna
Acreditando numa imprensa interativa e na melhor forma de me fazer entender a você e a seus leitores penso serem necessários mais alguns esclarecimentos a respeito de meu projeto Jardim de 2010 para a Casa Cor Minas 96.
Gostaria que ficasse bem claro que em nenhum momento pretendi afirmar que os jardins no futuro deverão estar privados do verde e da natureza. Reconheço a riqueza de nossa flora e a utilidade biológica e psicológica que a vegetação cumpre para o equilíbrio de nosso planeta.
Porém o verde em si só não garante a felicidade. Diversas áreas "verdes" em nossa cidade não passam de terra batida num equívoco de adequação ou manutenção. Remetem a uma imagem de sujeira e abandono porque as plantas necessitam carinho e para certos tráfegos públicos são praticamente inviáveis. Aí me lembro de tratamentos usados para estes casos como os cacos de tijolos, uma espécie de saibro, na praça do Congresso em Buenos Aires; ou simplesmente areia usada no piso da grande praça do Parque Guell em Barcelona.
Também citaria outros espaços públicos de grande significação como a praça de São Marcos em Veneza, a praça do Vaticano, a praça de Siena, a praça Tiradentes em Ouro Preto, os jardins Zens japoneses totalmente em pedras onde os monges "penteiam" os seixos e observam a passagem da vida e do tempo no desfazer deste desenho. Estes espaços e diversos outros prescindem da presença de vegetação e nem por isto são conhecidos como áridos ou terríveis.
Quando elaborei o projeto para a Casa Cor, me pareceu razoável manter o vazio já existente em frente ao lindo casarão de 1910, criando uma praça de chegada, um hall urbano, valorizando a presença do casarão e da enorme paineira existente no local que seria a vegetação única e valiosa deste pequeno jardim/praça. Pelos desenhos se podem ver os três elementos da composição: a paineira, os bancos e o casarão naquele ponto da Av. Assis Chateaubriand uma das mais arborizadas da cidade.
Tenho uma visão otimista e esperançosa em relação ao futuro. Acredito sermos, os brasileiros, uma civilização extremamente jovem para nos limitarmos à nostalgia e as memórias. Devemos conservar nossos bens mais caros mas também propor novas imagens que mostrarão nossa evolução como seres humanos, a Preservação do Futuro.
Quando adiantei 100 anos o Jardim de 1910 foi para mostrar que nos próximos anos os cidadãos poderão contar com espaços públicos dignos onde possam assentar para conversar, namorar ou ler o jornal. Para mostrar que o poder público deve se preocupar com o mobiliário urbano de uma forma prospectiva marcando a presença de cada época e propondo sempre surpresas na cidade. Que no centenário de Belo Horizonte poderá haver uma grande ação no sentido de valorizar os locais coletivos com simples ações bem desenhadas que revelarão todo o charme da cidade. Por isso fiquei "fora" da Casa Cor.
Para terminar te revelo um detalhe íntimo do Jardim de 2010, um segredo. Coloquei quatro placas indicando um caminho até a paineira que agora começa a ganhar folhas. Uma homenagem ao meu avô Newton Vale que em Juiz de Fora me convida para longas caminhadas onde vez por outra paramos para admirar e abraçar as árvores mais belas. É isso que penso das plantas, elas devem ser abraçadas como os serem humanos mais queridos.
meu forte abraço, JD