FLASHS PORTEÑOS

...

El pastito precário,

desesperadamente esperanzado

salpicaba las piedras de la calle

y divisé en la hondura

los naipes de colores del poniente

y sentí Buenos Aires.

Esta ciudad que yo creí mi pasado

es mi porvenir, mi presente;

los años que he vivido en Europa son ilusórios,

yo estaba siempre (y estaré) en Buenos Aires.

Jorge Luis Borges, en "Fervor de Buenos Aires"

 

 

 

No piso de uma nova praça no Porto Madeiro em Buenos Aires, vi uma grande rosa dos ventos com apenas a letra "S" na posição do Sul, como que indicando que o centro do mundo está aonde está o coração das pessoas.

A Bienal Internacional de Arquitetura de Buenos Aires desloca por alguns dias o eixo da arquitetura mundial. Neste período acontecem diversas conferêcias, palestras, premiações e exposições das quais participam em torno de 2000 pessoas.

 

Em 1993 aconteceu no mes de setembro a quinta edição desta Bienal com nomes de reconhecida expressão como Clorindo Testa, Mario Botta, Helmut Jahn, Thom Maine, Cesar Pelli, Richard Rogers, Hans Hollein, Bernardo Fort Brescia, Robert Stern, Stanley Tigerman, Peter Cook, Keneth Frampton, Miguel Angel Roca, Laureano Forero, Eolo Maia, Emili Donato, Carlos Brakte, Luis Paulo Conde, Ruth Zein, Gae Aulenti. Estes e diversos outros estiveram ali expondo seu trabalho, pensamento e mais que tudo convivendo durante o período. Além de tôdas estas figuras cabe destacar a presença de Jorge Glusberg, a alma e o cérebro de todo o evento, presidente da Bienal e diretor do Centro de Artes y Comunicación, o CAYC, entidade que tem prestado valiosíssimo serviço para a cultura em BAires.

 

Na semana anterior, mas dentro das atividades da Bienal aconteceu o Fórum Mundial de Jovens Arquitetos, evento que seleciona através de currículo e propoe um workshop entre 45 profissionais com até 40 anos de idade, provenientes dos quatro cantos do planeta. Estes arquitetos durante sete dias se encarregam, divididos em oito equipes, de concorrer a prêmio propondo soluções para a região de Puente Saavedra na grande Buenos Aires, área de conflitos urbanos com carências de estruturas de apoio nas áreas de transporte, comércio, serviços e habitação. Uma das portas da cidade desde o norte e de grande densidade populacional. Um tema recorrente em diversas metrópoles do mundo.

Esta foi minha segunda participação no FMJA. Em 1991, em equipe, conquistamos uma Medalla de Oro após uma semana de intenso trabalho. Ainda naquele ano após a Bienal fui juntamente com a Equipe 3834, formada por arquitetos de Belo Horizonte, a Santiago do Chile participar do V Seminário de Arquitetura Latinoamericana e apresentar nossas propostas premiadas no concurso BHCentro. Estas viagem representou uma sucessão inesquecível de experiências profissionais e humanas.

 

As equipes do FMJA se reuniram,em 1993, na sede do CAYC no centro de BAires. Aqueles três subsolos com suas paredes negras, palco de tantas exposições, há uma dezena de anos, parecem impregnados de pensamento e cultura. Trabalhar ali com os colegas internacionais é como passar a fazer parte da história daquelas paredes sem cor.

 

Igualmente importante nessas ocasiões são: a sorte de estar numa equipe que se amalgame rápido, o desenvolvimento de um bom projeto, o paralelo entre as soluções propostas pelas equipes, o intercâmbio profissional com colegas de Hong Kong a Lima,

os longos almoços e jantares, também em equipe, grandes mesas, coversas, croquis e brindes durante uma semana que parece o tempo exato para o desenvolvimento do F'órum. Entre se conhecer os novos parceiros, encarar diversos acordos e tensões, produzir bons desenhos e maquete, as ações devem ser rápidas e precisas.

 

Na última madrugada de trabalho quando terminávamos as pranchas num CAYC já quase vazio o colega Diego Armando, organizador do Fórum, sintonizou a Tango FM de BAires. Junto com tôdas as nossas propostas para a cidade aquela tradição musical encheu o ambiente e me pareceu privilégio dos arquitetos poder lidar de forma tão viceral com o passado e o futuro.

 

O julgamento dos trabalhos se deu de forma rápida pelo juri presidido por Mario Botta.. Após ouvir as explicações das equipes os jurados elegeram o projeto que solucionava a questão de forma conceitualmente simples, numa escala bastante humana e ecológica. Nesta equipe estava a arquiteta Verônica Matta Machado, de Belo Horizonte. A grande diferença entre as propostas eram entre serem mais ou menos teóricas ou formalizadas, e de escala de abordagem mais local ou metropolitana.

 

Voltando ao CAYC após a conclusão dos trabalhos comentaram que Clorindo Testa estava na casa. Já tinha estado com êle em outras oportunidades e não me furtei à chance de cumprimentá-lo. Clorindo é uma unanimidade na arquitetura argentina, autor de obras primas como o Banco de Londres e a Biblioteca Nacional em BAires. Êle surpreende, por sua obra, pela maneira própria de interpretar as transformações que sofre a arquitetura nestas décadas em que tem atuado, e da sensibilidade como artista plástico. Clorindo preparava sua exposição a ser inaugurada no dia seguinte. Me vi diante daquele senhor com seus talvez setenta anos de criatividade, pintando êle mesmo um tosco cavalete de madeira. A tinta branca chegava a respingar-lhe o terno. Interrompeu o trabalho, me saudou carinhosamente. A exposição tinha algumas fotos de projetos e várias instalações ligadas a sua memória e infância. Aqueles cavaletes somadaos a grandes folhas de papel branco embolado representavam um estranho leito de hospital para os enfermos da peste que assolou BAires no começo do século.

Como tinha levado slides dos meus trabalhos, me propus a mostra-los aos colegas do Fórum já que havia espaço para este tipo de atividade e participantes catalães, peruanos e alemães também fariam apresentações. Tocou-me falar após Marcin Orawiec, arquiteto polaco-alemão autor de projetos de grande impacto visual e gráfico a maioria deles relativos a participações em concursos. Iniciei minha "charla" mostrando fotos do interior de Minas Gerais, para situar alguns projetos construídos em Abaeté. O contraste entre a vanguarda européia e as possibilidades arquitetônicas no sertão saltou aos olhos dos presentes como como realidades que igualmente buscavam relacionar o homem e a terra. Prossegui no meu inglês-mineiro passando pelos edifícios de Belo Horizonte. Ao final me comentaram sôbre a alegria e liberdade da cultura brasileira que se podiam ver nos projetos. Depois fomos covidados eu e Marcin a fazermos a mesma "charla" na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Buenos Aires, falei em português mas fui traduzido. Finalmente como haviam espaços na programação oficial da Bienal me dispus e acabei fazendo minha apresentação no auditório do Centro Cultural da Recoleta, sede das exposições da Bienal. Depois de assistir a quase 40 palestras pude dar minha contribuição a este evento internacional mas com pequena representação latinoamericana.

Um colega de Fórum, René Poggione, arquiteto argentino residente em Lima fez uma palestra tão rápida quanto interessante. Apresentou um projeto seu através de duas fotos e alguns desenhos que fazia na hora. Depois falou da vocação da arquitetura latinoamericana em seguir exemplo de emancipação da literatura latinoamericana neste momento em que perdíamos o complexo em relação aos ditos centros do mundo. Para terminar leu poema do livro "Fervor de Buenos Aires" de Jorge Luis Borges, cuja literatura, segundo René, continha verdadeiras aulas de arquitetura. Ao final, quando fui cumprimenta-lo, me regalou o livro, reconhecimento por nosso entendimento anterior e quiçá futuro.

 

Após a entrega dos prêmios da Bienal e do Fórum, fomos a uma festa com tôdas as equipes e agregados. Era a última noite em Buenos Aires e deveríamos estar no aeroporto às cinco da manhã. Lá pelas tantas entre danças e goles anunciou-se que estávamos partindo. Abraçaram-se 2,3,5 pessoas, de repende era um abraço dançante de 40 pessoas, uma despedida corporal após aqueles dias de pensamentos e emoções. As paredes do apartamento resistiram bem aos impactos do grupo. Saímos rápido num taxi pela avenida Santa Fé, guiados por Adrian Lobato, meu colega hospedeiro que se tornou meu irmão porteño. Na fila do check-in estávamos meio mareados Verônica, Éolo e eu. Chegamos em casa num sono só.

João Diniz, outubro 1993