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MAL TRAÇADAS LINHAS SOBRE O DESENHO

Texto para o livro 'Desenho de Arquiteto' de João Diniz e Sylvio de Podestá, editora AP Cultural, 1997





 

O que é o Desenho de Arquiteto?

Boa pergunta para se fazer quando se tem este livro nas mãos.

O desenho é ferramenta fundamental para a arquitetura e pode aparecer em diversas formas:

- O croquis, ou o sketch, é a gênese da criação projetual, embora simples e gestual revelam o nascimento de espaços edifícios e objetos.

- Os desenhos técnicos são os documentos para a execução em obra, aprovação legal dos projetos, informação sôbre detalhes da construção.

- A perspectiva arquitetônica mostra de forma realista o que se vai construir.

- Temos ainda as infografia que são imagens geradas por computador e aparecem atualmente como ‘estrelas sedutoras’ na representação arquitetônica.

Este livro, sem negar a importância das demais etapas, aborda o croquis por acreditar que é nesta fase do processo que o arquiteto está mais próximo de sua intuição. É aí que acontece a criação, o encontro com o novo, a invenção do inédito.

Estes desenhos tem para mim, e talvez para grande parte dos arquitetos, um papel decisivo na investigação e na fixação do pensamento e da idéia.

Estes registros não são um fim em si, mas não deixam de ser um produto que remete ao espaço imaginado ou a si mesmos na representação de alguma utopia.

São as primeiras revelações das idéias, materializadas ou não, e da descoberta de outros espaços, cidades, praças, paisagens e personagens.

Em sua simplicidade são registros íntimos que fazem parte de um diário pessoal aberto a sonhos, procuras e até a incapacidades.

Uma forte extensão das emoções e do pensamento, o traçar linhas é atividade primitiva, revelada na primeira infância, que costuma abandonar, infelizmente, as pessoas ao longo da vida.

Porém para alguns arquitetos o desenhar em demasia chega a dificultar o texto escrito e até o discurso oral, sendo as vezes mais fácil produzir o projeto que explicá-lo.

O desejável seria buscar a pluralidade de linguagens.

De outro lado o mito do arquiteto bom desenhista me parece bastante falso. A intuição e o pensamento vêm antes de qualquer representação arquitetônica. Aí o desenho é apenas um meio para que se alcance o conceito e a forma imaginados.

Vale à pena lembrar também as grandes lições que diversos arquitetos dão através de seus desenhos. São verdadeiros tratados arquitetônicos narrados sem nenhum texto mas com figuras de extrema força.

Aí podemos citar os traços de Oscar Niemeyer que segue desenhando seus primeiros projetos até hoje mas não nega a importância do texto escrito para que se comunicar suas idéias arquitetônicas e pessoais.

Os desenhos de Aldo Rossi, que antes mesmo das obras construídas mostravam a força de seu pensamento e complementavam seus textos teóricos. Estes registros foram fundamentais para a definição do pós-modernismo em arquitetura.

Álvaro Siza mostra com seus esboços iniciais para projetos a força da arquitetura em fase de nascimento.

Clorindo Testa, e os argentinos, são um caso a parte: a tradição do croquis do desenho e até da pintura está presente na tradição arquitetônica daquele país onde as escolas de arquitetura têm uma matéria ‘El Dibujito’ que estimula este tipo de expressão.

Também destacaria como importantes referências pessoais o traços dos colegas mais de Minas Gerais: Éolo Maia, Veveco Hardy, Cid Horta, Fernando Ramos, Elias Rodrigues, Sylvio de Podestá, Humberto Serpa, Willian Abdalla, João Batista e outros, com seus desenhos de arquitetura originários do cartoon, das artes plásticas ou da preparação para a perspectiva arquitetônica elaborada.

Atualmente estamos na era da computação gráfica e chega-se a questionar a validade do desenho gestual. Caberia a pergunta: O projeto, e o desenho, se faz com a mão ou com o computador? A resposta: Se faz com a cabeça, quiçá com o coração e a alma.

Acredito que, nós arquitetos, devemos transcender a arquitetura para entendermos a vida e suas representações. Aí são extremamente importante a observação dos desenhos infantis, dos deficientes mentais, dos artistas plásticos, das histórias em quadrinhos e dos leigos que negam qualquer capacidade.

O que mostro neste livro são desenhos-idéias que remetem a um desejo, não desenhos-objetos que deveriam ser bem acabados e um fim em si. Chego a duvidar de minha técnica ou talento como desenhista, mas me parece importante e vital viver a arquitetura além do pragmatismo da construção.

Estes desenhos feitos informalmente com os lápis, pincéis, colagens, xerox, pastéis e penas sobre os mais diversos papeis, fazem parte de uma busca mais ampla que inclui a fotografia, o texto, a poesia, a música, e para mim complementam o fazer arquitetônico.

Com o tempo acredito que se fundirão cada vez mais.

Aí talvez poderemos voltar a riscar com a liberdade de uma criança...

 

João Diniz, novembro 1997