CASA CRUZ

O arquiteto egípcio Hassan Fathy disse certa vez que a execução de uma construção, principalmente das casas, depende de uma trindade: o Dono, o Construtor e o Arquiteto.
Cada um é igualmente responsável pelo sucesso da obra.
E cada casa é um caso.


Uma arquitetura interativa não pode partir de um modelo pré-concebido.
Como escreveu Manoel de Barros:
"Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma."
A linguagem arquitetônica neste caso está intimamente ligada à participação e satisfação do proprietário, que era também o engenheiro.
A realização do projeto aparece como processo dinâmico, organismo em formação, materialização de idéias que são provocadas e surgem no período de construção.
Tudo muito bem conversado passando pelo crivo do viável, através de uma engenharia integrada ao desenho.
O terreno em leve declive, com um pequeno bosque, boa vista morro abaixo, condomínio Estância das Amendoeiras em Lagoa Santa, região metropolitana de Belo Horizonte.
O programa previa uma casa ampla que recebesse amigos e parentes sendo também a moradia da família, que proporcionasse ao mesmo tempo o convívio ao ar livre e interior, e que desfrutasse da continuidade entre as áreas principais e de apoio.
Estas questões indicam polaridades e integração entre as idéias de Social-Íntimo, Externo-Interno, Encontro-Serviço.
A implantação paralela às curvas de nível, aparece com pequeno impacto conformando um longo pavilhão em duas alas: a íntima e a de convívio.
Este corpo é dividido por bloco transversal, com pés-direitos diferenciados conformando áreas de serviço na parte posterior e, na frente, aparece a sala alta com seu mezanino buscando a visada distante das vistas.
O partido em Cruz resolve a integração e a oposição das funções. Uma forma primitiva que aparece solucionando a questão.
A parte íntima dos quartos (calma) se opõe à área da grande varanda e da piscina (agitada) se completando com o bosque. O grande volume central da sala com mezanino e sala de TV (social) também se opõe e se integra à área de serviços, cozinha, garagem, e apartamento anexo.

A composição da idéia através de várias somas:
A encruzilhada da solidão + A travessia do encontro,
A linha viva + A matéria inerte,
A presença do vazio + A transparência do sólido,
O ponto de partida + Alinha de fuga
A exterioridade lá dentro + O entrar no mundo
A incerteza do risco + A intenção do traço
O limite do vasto + o pequeno infinito
O silêncio que diz + a palavra que cala
A Casa Cruz de braços abertos.


arquiteto: João Diniz
estagiárias de arquitetura: Alessandra Borges, Daniela Fenelon, Flávia França
construção: José Alberto Magalhães Machado
interiores: Renata Granha
granitos e mármores: Granibrás, Granitos do Brasil
esquadrias em madeira: Móveis Belo Vale
localização: condomínio Estância das Amendoeiras, Nova Lima, Minas Gerais
área do lote: 5000,00 m2
área construída: 700,00 m2
projeto e execução: 1993-1994