
BH 100 TIMENTOS
Belo Horizonte ccmpleta seus 100 anos e nos indagamos, seus filhos que somos, qual é o destino desta cidade? Ela que é nossa casa, nossa rua, nosso espaço vazio, nosso tempo cheio, e como alvo de nosso olhar abarca vários sentimentos em sua velocidade mineira.
Será bastante um século para que amadureça uma urbe?
Os primeiros passos foram dados, e a cidade jardim se transformou de repente. As fotos antigas parecem muito mais velhas. Venera-se o passado, desacredita-se do presente e teme-se o futuro enquanto os automóveis se engalfinham perto da Santa Casa.
Guarda-se na memória a imagem de uma avenida cabeluda de árvores por onde passeava meu avô João em terno de linho branco quando foi retratado ao lado de seu filho Ricardo que estreava sua primeira camisa sport. Fotografei vocês com minha Rolleifex, isso foi antes d'eu nascer. Uma vez voltei de férias e a avenida do Contorno estava escalpelada, bem ali em frente ao Loyola onde eu estudava.
Cada pessoa tem para si estes flashes que seguem vivos compondo baús de fatos.
Em que momento se coloca o tempo na prateleira como um livro já lido? E porque?
É como se todos os jogadores de futebol pendurassem as chuteiras de uma só vez, durante uma partida.
Imagine a paciência da cidade que observa passiva os desmandos de seus herdeiros. São desfeitas anônimas. A cada década as novas construções iam perdendo a alegria, seguiam desesperançadas como mercadoria de segunda, não se lembrando de seus avós os negavam atirando paus, transformando-os em pedras.
E deram também uma mordida na Serra do Curral. O belo horizontal deu lugar ao feio vertical. As empenas iniciais foram esquecidas. Pior, esqueceu-se o entusiasmo de quem funda uma capital.
Mas então, porque o tempo parou, e agora João? Valerá a pena esta choradeira, ficar olhando as estantes relendo sempre o mesmo drama? Perguntas atrevidas e infantis de uma metrópole que é uma criança centenária e que pouco sabe de si.
Deste lado do Atlântico existe uma cidade por traz das montanhas, uma cidade do mundo num mundo de várias idades, de vários centros, de várias verdades relativas das quais se deve sempre desconfiar, como convém.
O país Minas é apenas mais um com sua capital. Não sejamos bairristas, sejamos mundistas ao reconhecer nossas qualidades e erros, ao tentar de novo em vez de julgar os outros, ao aprender com os enganos e acertos de quem for.
Mais que tudo é necessário propor algo como sempre fizeram e fazem alguns atrevidos inventores de sonhos. Só perguntas não contam estórias
Estes sonhos são exceções que sempre foram detectadas e passaram a desempenhar papel heróico afirmando a possibilidade de se construir bem, são testemunhos em diferentes épocas, solos isolados na impossibilidade de uma sinfonia harmônica. Estas obras são os personagens da rua, atores da história, agentes da música urbana
Talvez seja cedo para se falar de nossa cultura ou civilização como também é cedo para nos reduzirmos às lembranças como se o Bem fosse peça de museu. As forças estão vivas, estiveram e estarão. A história é dinâmica como um incêndio em uma biblioteca onde restam todas as palavras por serem reescritas, alguns poemas pairam como fumaça, outros casos voam como cinza.
A cidade pode ser refeita sobre si mesma sem terremoto ou bomba. São luzes que surgem, referências novas, os cartões postais do futuro, que serão projetados e construídos pelas crianças que vão nascer, e quem sabe, serão habitantes seguros e conscientes de BH quando ela fizer 200 anos.
JD

pintura Gilberto de Abreu